A DIPLOMATA E O PARADOXO DO PODER FEMININO: POR QUE A MULHER AINDA PRECISA PROVAR O QUE O HOMEM APENAS PRESUME?
- Daiana Tek

- 19 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Na série The Diplomat (Netflix), Kate Wyler, interpretada por Keri Russell, é apresentada como uma diplomata de carreira brilhante, habituada a zonas de guerra, negociações tensas e crises internacionais. Ao longo das três temporadas, ela ascende politicamente de forma meteórica da função de embaixadora dos Estados Unidos no Reino Unido à disputa pelo cargo de vice-presidente. No entanto, o verdadeiro enredo da série não está apenas nas articulações geopolíticas, mas no modo como o poder feminino é retratado em um sistema ainda condicionado por critérios estéticos e validações masculinas.

Wyler é uma mulher que escolhe não performar. Enquanto o universo ao seu redor é pautado por aparências cuidadosamente construídas, ela surge desalinhada, prática, quase indiferente à própria imagem. O cabelo desalinhado, as roupas simples e a ausência de maquiagem são escolhas políticas, não descuidos. Kate acredita que, ao não cuidar da aparência, reafirma que sua energia deve ser dirigida ao essencial: a resolução de problemas e o exercício da liderança.
Há uma cena emblemática em que, prestes a participar de uma reunião diplomática de alto nível, ela prende a calça com um clipe de papel. O gesto, aparentemente banal, sintetiza sua filosofia: improvisar, resolver e seguir. É um ato de resistência contra a superficialidade, mas também o retrato de uma mulher cansada de ser medida por padrões que não definem sua competência.

O marido de Kate, Hal Wyler, ex-embaixador e figura carismática, representa o contraponto simbólico da narrativa: o homem que, mesmo afastado do cargo, continua influente. Hal é o espelho do sistema patriarcal que se infiltra em todas as esferas de poder. Ele a ama, admira sua inteligência, mas também tenta conduzi-la, orienta, interfere e, por vezes, sabota. Hal é o lembrete de que, para muitas mulheres em cargos de liderança, a luta não é apenas institucional, mas doméstica. Em The Diplomat, o casamento é o microcosmo da geopolítica: disputa, influência e controle.

Entretanto, o que a série escancara com precisão cirúrgica é que a mulher no poder continua sendo observada, testada e julgada em todas as dimensões. A aparência, a voz, o tom, o gesto, tudo é interpretado como sinal de competência ou fragilidade. O homem pode ser brilhante e desleixado; a mulher precisa ser genial, contida e, se possível, impecável. O sistema exige da mulher uma performance constante, ora de eficiência, ora de aceitação, enquanto lhe nega o direito de simplesmente existir em estado bruto de autoridade.
A recusa de Kate em investir na própria imagem é, portanto, ambígua: ao tentar anular a estética, ela produz outra, a da resistência. Mas resistência também comunica. E é aqui que entra uma reflexão necessária: a aparência é parte da nossa marca pessoal, e a marca pessoal é uma estratégia de poder. Essa afirmação, contudo, não se refere a grifes, excessos ou estereótipos de vaidade. Trata-se de consciência e coerência. Cuidar da imagem é compreender que o modo como nos apresentamos traduz o modo como o mundo nos interpreta. É sobre presença, não sobre adornos. Não se trata de parecer mais, mas de comunicar melhor. Negar isso é deixar que outros construam a narrativa da nossa autoridade.

Sob essa ótica, o dilema de Kate pode ser reinterpretado à luz do Método REDIM. No pilar Inovação, ela desafia padrões e cria novos modelos de presença feminina em espaços de decisão. No pilar Mentoria, sua trajetória expõe a importância de preparar outras mulheres para compreenderem que autoridade e aparência não são opostos, mas dimensões complementares do mesmo discurso de liderança. A mulher que lidera precisa dominar o conteúdo e a comunicação e, no caso de Kate, o que falta em forma sobra em estratégia.

A série é um espelho desconfortável, mas necessário: mostra que, mesmo no século XXI, a mulher precisa provar o que o homem presume. Ainda é preciso justificar o tom da voz, a roupa, a ambição. E, enquanto os corredores do poder continuam ecoando julgamentos sobre como uma mulher “deveria se portar”, The Diplomat nos lembra que o verdadeiro campo de batalha não é apenas político, mas simbólico.

Se este texto abriu novas perspectivas, continue a reflexão comigo nos comentários. A discussão não termina aqui.

Tek abraço, Daiana Tek
Referência:
NETFLIX. The Diplomat. Direção: Debora Cahn. Produção: Netflix Studios. Estados Unidos: Netflix, 2023–2025. Série de televisão, 3 temporadas.
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